Garranchos Indecifráveis

Comprei um journal, não vou chamar de diário porque associo a palavra a algo infantil e também porque a ideia não é escrever todos os dias então o termo perde o sentido.

Fiquei décadas para começar a escrever no tal do journal, primeiramente porque eu coloquei uma série de empecilhos que me impediam de iniciar a tarefa rapidamente. Uns requisitos bestas que não fazem sentido para ninguém além de mim mesmo: o caderno tinha que ser tipo moleskine, pautado ou pontilhado mas as folhas não poderiam ser brancas. A caneta tinha que ser tinteiro porque... porque não? A tinta da caneta tinha que ser preta porque escrever em azul me lembra escola/trabalho e eu queria que o ato de escrever fosse prazeroso, da mesma forma que é aqui.

Já escrevi algumas vezes, não com a frequência que eu gostaria, assumo... e o fato de ter me acostumado a escrever em meio digital, onde apagar e rearranjar frases é fácil, me atrapalha. O resultado são textos que fazem sentido absoluto antes de existirem fisicamente e, no tempo em que a tinta leva para fluir do reservatório para a ponta da caneta e desta para o papel, se transformam num amontoado de frases desconexas e incoerentes.

Não sei escrever. É a conclusão obvia da minha mente afobada, e faz sentido... tenho que reaprender a escrever nesse novo meio. Na verdade, tenho que aprender a escrever... porque com exceção do trabalho e da escola, nunca escrevi com tinta e papel.

E escrever em papel não é fácil, requer um esforço maior que aparentemente me impede de formar frases coerentes rapidamente como acontece num computador. No papel, a "fonte" demanda atenção: não adianta escrever em garranchos indecifráveis. A mudança de linha não é automática e exige uma série de decisões: separar ou não as sílabas? essa palavra cabe ou não cabe?

Coisas simples também são impossíveis no papel. Um parágrafo que se divide em dois facilmente num editor de textos não tem a mesma mobilidade e capacidade de transformação numa folha. Assim como meu hábito de capitular o não capitulável, que é mero inconveniente num texto formado por pixels, e no papel é um monstro que exige patrulha constante.

E tem o erro, o erro não existe no digital. Já no físico.

Fora a sinceridade, depois de anos aprendendo a ser sincero no digital, me sinto acanhado no papel. O caráter mais permanente do papel e o fato dele estar lá, disponível na gaveta física do meu quarto, escrito com a minha letra, expondo os meus erros, assusta.

Estranho esse papel.

Na última noite...

Ele a viu feliz pela primeira vez em meses, depois de uma longa batalha os dois estavam finalmente bem, feridos mas bem. E ele se permitiu entrar no lugar com um sorriso que pudesse encontrar o dela.

Do outro lado do salão ela conversava de taça na mão com homens mais sérios que ele. Com um sorriso e um leve aceno, pediu que lhes dessem licença, o havia visto... e atravessou o lugar num passo leve, mantendo sorriso e olhar fixos nele.

Alguns segundos estranhos passaram enquanto um carregava o olhar do outro através do salão. Ela parou pouco antes de alcançá-lo... ele a parabenizou, mesmo de longe. Em troca, ela olhou através dele e não ouviu nada, se aproximou radiante, tomada por uma alegria imensa, e o abraçou da mais sincera forma.

"Obrigada por vir" - Ela sussurrou em seu ouvido.

Os olhos dele brilharam em preparação para um aguaceiro. Manteve a compostura, por ela. O abraço teve fim um milênio depois, o mundo voltou a girar e ela não disse mais nada, foi puxada por uma senhora distinta e engolida por seus respeitosos convidados.

Ele se manteve no canto. Vez ou outra levantava a taça em direção a ela e lembrava de sorrir. Ela sempre retribuía o gesto com um olhar de aprovação, um sorriso ou aceno discreto... até que o perdeu de vista.

Ele voltou pra casa, ela também.

Comosenem

Naquele dia ele estava lá, e se eu soubesse não teria aparecido.

Não é que eu não saiba que você divide comigo o que divide com ele, não é segredo. Você não esconde, aparece cheirando a ele como se não percebesse... como se o ciúme despertado te trouxesse prazer maior.

No começo era excitante saber que tu chegava em casa e tinha que mentir, saber que talvez ele notasse a marca dos meus dedos na tua coxa, ou o cheiro do meu suor nos teus cabelos. Chegava a ser engraçado o fato de que eu cruzava com ele na rua e ele me dizia "oi" como se nem. Como se nem odiasse o fato de ter que dividir.

Aí o tempo foi passando e eu parei de imaginar a tua desculpa para o vestido amassado, parei de tentar buscar nos teus olhos o motivo do arranjo, parei de procurar o sentimento que não ia achar... passei a fingir que eu era ele, que era eu que andava de mãos dadas contigo na praça, que era eu que ria contigo na livraria.

Mas não era, eu ficava com as sobras... com os dias que ele não estava lá, com as noites em que ele não notaria sua ausência.

Naquele dia ele estava lá, e se eu soubesse teria aparecido antes.

Percebi que ele era parecido comigo, que te olhava com o mesmo olhar, com aquele olhar de incerteza, de desconfiança. Aquele olhar de quem sabe e não quer dizer.

Mas os três sabiam. Então entrei, sentei, liguei a TV e chamei pra ver comigo.

Chamei ele pra ver comigo.

E ele sentou, e nos conversamos, rimos, nos demos bem.

E você diminui num sofá distante, como se nem. Como se nem odiasse o fato de ter que dividir.

No primeiro dia

Acordei vinte para as seis da manhã, apesar do fuso diferente meu corpo se adaptou imediatamente e não perdeu a oportunidade de me avisar que estava pronto para o trabalho. Minhas pálpebras se afastaram os milímetros necessários para analisar o quarto, e meu peito se expandiu num breve porém profundo suspiro de alívio quando percebi que realmente estava longe de tudo.

Não havia necessidade de correr para me preparar para mais um dia, eu tinha todo o tempo do mundo para desfrutar daquele lugar estranho. E a paz desta constatação inundou cada centímetro do meu corpo, que de preguiça penetrava cada vez mais no colchão macio, dando um sentido nunca antes tão verdadeiro a palavra aconchego.

De um lado, a janela emoldurava uma paisagem histórica que num simples olhar trazia tantas perguntas; do outro, um corpo adornado por um lençol branco aproveitava os recém descobertos prazeres duma estranha cama de despreocupação.

Observei às duas paisagens por um par de horas que transcorreram em um segundo ou dois. O Sol iniciou sua subida ao mesmo tempo em que os olhos da companhia se abriram num silencioso bom dia acompanhado de um sorriso acanhado. O dia começou, mas se acabasse naquele momento... seria um dos melhores.